| Vamos ser chamados a discutir as orientações
para a Direcção e Administração das Escolas.
A questão tem subjacente modelos de sociedade e mesmo de cidadãos.
Alguns professores são seduzidos pela aplicação às
escolas de modelos empresariais. Defendem-nos em nome da eficácia.
As escolas não são fábricas. Os alunos não são
produtos nem clientes. A lógica da organização escolar
é, a meu ver, distinta da empresa. Portugal fica na Europa e não
nos EUA. Talvez valha a pena pensarmos no que acontece a uma sociedade quando
se rege pelas leis das empresas. Quando um projecto de desenvolvimento
subestima a importância das pessoas e concentra todas as suas energias
e recursos na eficácia económica, origina uma sociedade
à imagem e semelhança de uma grande empresa e não,
necessariamente, uma sociedade de melhor bem estar. Esta é a orientação
dominante da actual política dos Estados Unidos. O actual êxito
norte-americano é o seu triunfo como empresa.
São cada vez mais numerosos os que reconhecem que, no campo social,
o modelo neoliberal americano é injusto porque aumenta as desigualdades,
abandona os pobres à sua sorte, promove a marginalidade e a violência.
É verdade que a economia americana é neste momento mais
eficiente que qualquer outra, tem as taxas de produtividade mais elevadas
do mundo, os trabalhadores americanos são os que mais horas trabalham
e possuem as empresas que maiores lucros recolhem. São ainda os
Estados Unidos o país que possui mais super corporações
industriais e financeiras e as maiores organizações de venda.
Suponho que seja quem for que se tenha relacionado com os americanos lhes
reconhece uma espantosa - e por vezes chocante - capacidade para retirar,
seja do que for, benefícios económicos.
Na actual escola americana, onde a violência atinge limites impensados
por nós, as crianças e os jovens são preparados para
lidar com as leis do mercado, com as suas rivalidades, impiedades, as
regras da oferta e da procura, a sua ânsia de logro e de lucro.
O desporto, na formação dos jovens americanos, não
é apenas uma questão de saúde e ainda menos de convivencialidade.
0 que se pretende é desenvolver o espírito combativo, a
vitória a todo o custo, a capacidade de vencer os outros porque,
como disse o presidente Ford aos seus atletas olímpicos, "é
melhor morrer, que viver derrotado".
Aos olhos da maioria da opinião pública americana quem não
obtem vitórias não é um verdadeiro norte-americano.
Os vencidos são mal vistos pelo deus calvinista e duplamente mal
vistos aos seus próprios olhos. O "sonho americano" é
um pesadelo para os vencidos.
Durante o ano que agora findou, em várias cimeiras, pessoas pouco
dadas à justiça distributiva manifestaram inquietação
em relação às profundas desigualdades que ocorrem
na Sociedade Americana: dois em cada três assalariados sofrem o
emprego precário; os salários reais de uma ampla maioria
da população estão ao nível de há vinte
anos; uma criança que nasça hoje em Harlem tem uma esperança
de vida inferior a outra que nasça no Bangladesh e tem menos probabilidades
de frequentar a educação pré-escolar do que uma criança
de Shanghai; um jovem negro norte-americano sabe que, em princípio,
passará em média mais tempo na prisão (onde se encontram
mais de 2% dos homens em idade de trabalhar) do que na universidades.
Os Estados Unidos estão cada vez menos Unidos e a sociedade norte-americano
corre o risco de explodir.
A ansiedade, o stress, o sentimento de insegurança, as depressões,
são doenças tipicamente americanas. São doenças
de empresa. Os americanos e as suas paixões movem-se e modificam-se
com a mesma velocidade com que se criam e destroem empresas. Os casamentos
e as famílias têm a duração dos brinquedos
de má qualidade nas mãos de crianças traquinas. O
desejo de cooperação e de solidariedade são fraquezas
dos falhados da vida. O aumento crescente da aplicação da
pena de morte fazem o orgulho das populações de alguns Estados
como o do Texas (47 execuções este ano, número só
batido pelo recorde de 1930), da Califórnia ou da Florida.
No primeiro mandato de Clinton os Estados Unidos criaram mais de dez milhões
de postos de trabalho, entretanto, nos últimos quinze anos destruiram-se
quarenta e três milhões. Estas mudanças rápidas
no mercado de trabalho, favorecidas pela precariedade do emprego, fazem
com que 15% da população norte-americana tenha de mudar
de residência em cada ano e normalmente para zonas distantes do
local onde moravam. Assim, não é apenas o emprego que é
precário e flexível, mas precárias são também
as famílias e as relações afectivas ou de vizinhança.
Numa sociedade tão precária é difícil lançar
raízes, fazer amigos ou conservar relações familiares
que não sejam superficiais. Em suma, as exigências empresariais
impõem as suas leis à convivência humana, ao ensino,
à produção cultural, à vida nas cidades -
cada vez mais privadas de convivencialidade -, ou á alimentação
cada vez mais pronto a engolir.
Que queremos nós na Europa? Que queremos nós educadores
e professores europeus nas nossas escolas? Que projectos de presente e
de futuro numa sociedade cada vez mais globalizada e mais dominada pela
hegemonia Norte Americana? Eficiência empresarial? Clinton? Jospin?
Outra coisa?
Pelo menos na aparência a Europa procura uma nova identidade, no
meio de uma crise de valores que parece profunda. Para muitos dos cidadãos
europeus o modelo angloxação, hoje hegemónico, é
contraditório com a União Europeia, próspera e justa,
sonhada por aqueles que lhe deram o primeiro impulso. A União Europeia,
à medida que avança, com passos vacilantes, parece por a
nu um horizonte ainda mais carregado de sacríficios do que os que
vivemos no presente. A ideia de uma Europa de cidadãos, de direitos,
onde valha a pena trabalhar e viver, parece comprometida.
É neste quadro que provavelmente vamos ver intensificar-se o confronto,
político e de ideias, na Europa. Os empresários, e muitos
técnicos europeus, não deixarão de olhar com fascínio
e simpatia os setenta e um meses de crescimento ininterrupto da economia
americana e as suas taxas de lucro. Os políticos europeus - se
não querem passar à situação de cadáver
político - não poderão deixar de ter em conta (pelo
menos tanto quanto baste) a opinião dos eleitores dos seus países.
Talvez alguns se lamentem por sermos europeus e não americanos
e por termos uma história muito longa de que as lutas dos trabalhadores
fazem parte.
Se a tentação da americanização da Europa
for por diante, não tenhamos dúvidas, as dificuldades e
tensões políticas crescerão aqui como em nenhuma
outra parte do mundo.
Mas não vale a pena ocultar a realidade. Nos últimos dez
anos o capitalismo europeu está em convergência com o americano,
particularmente pela adopção do conceito de flexibilidade
importada dos Estados Unidos e por efeito do fenómeno da globalização.
Esta é uma realidade sobre a qual temos de ter mais do que uma
palavra.
Também nas escolas portuguesas temos quem defenda a aplicação
das leis das empresas à Direcção e Administração
das Escolas. Também temos quem não se interrogue sobre as
causas da violência que graça na sociedade e nas escolas
americanas e que leva a nomear generais reformados para governar o sistema
educativo dalguns Estados. Também sobre isto - o debate está
aí - é necessário pensar e ter mais do que uma palavra.
Ninguém duvida que as políticas neoliberais fazem a felicidade
dos accionistas das empresas. Mas corresponderão a um projecto
de progresso humano, se por humano se entende a comunicação
pessoal, o prazer, a solidariedade, o direito de decidirmos sobre o nosso
presente e futuro, a capacidade de estar verdadeiramente com os outros?
Ainda nos EUA, no mesmo período de tempo que permitiu aos accionistas
ver os seus lucros multiplicados por quatro, os trabalhadores perderam
em termos reais 11% do seu salário e viram o seu tempo de trabalho
aumentado. Se a tendência se mantiver, os assalariados americanos,
com emprego, no ano 2.000, trabalharão tanto como nos anos vinte.
É certo que nos últimos trinta anos, na América do
Norte, se desenvolveu uma importante literatura fazendo a apologia da
desigualdade e a contestação à redistribuição
dos lucros e da riqueza. Talvez a propaganda tenha "convencido"
uma boa parte da opinião pública americana, mesmo assim,
os americanos serão felizes? Há poucos anos, um grupo de
executivos americanos, residentes na Europa, respondendo a uma pergunta
de um jornalista diziam: "Os Estados Unidos são o melhor país
para trabalhar e ganhar dinheiro, mas o Sul da Europa é o melhor
sítio para se viver". Os que experimentaram o contraste mostram
que não são cegos.
O que fascina tanto os neoliberais europeus de pacotilha?
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